Desinfluencer

Tenho o costume de entrar em sites de notícias todos os dias, mais ou menos como ler um jornal. Li uma matéria sobre pessoas chamadas "desinfluencers", ou seja, quem faz vídeos e posts desencorajando o público a comprar demais, atuando como agentes do caos do pós-capitalismo. Eu adorei essas pessoas, mas jamais as seguiria, pois acredito que não preciso ser desinfluenciada. Inclusive, eu poderia ser desinfluenciadora de várias coisas se eu não tivesse outras ocupações da vida certamente dedicaria meu tempo a essa tarefa que é mais ou menos como gritar no meio de uma mata densa esperando que alguém escute.

Desinfluencer de Maquiagem
Não uso maquiagem há muitos anos. A última vez que comprei maquiagem acho que foi num duty free numa viagem em 2013, ou seja, vou chutar que parei de usar maquiagem há uns 10 anos. No início, as pessoas diziam sem nenhum problema "você está com cara de cansada" até se acostumarem a minha nova cara. Também nunca fiz maquiagem com profissionais, nem para eventos marcantes como o casamento do meu irmão (só passei um batom pra minha mãe não reclamar). Não perco tempo me maquiando, não gasto dinheiro com cosméticos (minha nossa, eu sou basicamente um homem! risos) e os dois únicos produtos que uso são sabonete apropriado para o rosto e protetor solar (jamais seria homem). Nem as unhas eu pinto mais. Ninguém realmente precisa dessas coisas e acredito que a sociedade eventualmente vai evoluir a ponto da indústria de cosméticos desaparecer do mapa - mas isso só se sobrevivermos ao apocalipse climático. Então, sim, eu facilmente seria desinfluencer de maquiagem.

Desinfluencer de Redes sociais
Entendo o paradoxo de usar as redes sociais para influenciar as pessoas a deixarem de usar as redes sociais, mas por onde mais é possível criar um canal de comunicação tão grande hoje em dia? Desde 2023 eu venho nesse movimento de usar as redes por um tempo e depois deletar os aplicativos do meu celular por mais um tempo. É incrível a diferença que isso tem feito, por exemplo, eu leio mais, vejo mais filmes, faço mais exercício físico, resumindo, meu tempo não se esvai num vácuo de scrolling eterno. Além dos benefícios pessoais, creio que as redes sociais são um horror capitalista para a sociedade. Os algoritmos ajudam os já poderosos bilionários a controlar nosso consumo, nossos pensamentos e comportamentos. Esses perigos são pouquíssimo divulgados e há uma falta de letramento digital da maioria das pessoas que usam as redes, em outras palavras, as pessoas sabem usar as redes, mas não sabe como as redes as usam. Então, sim, se eu tivesse público suficiente para desinfluenciar, eu estudaria mais sobre o assunto e ajudaria mais pessoas a usar menos as redes (isso porque eu nem falei de IA e seus horrores).

Desinfluencer de Arquitetura Brega
Eu não aguento mais ver as pessoas construindo casas e mais casas no "estilo modernista" no lugar onde moro e, ao viajar para o litoral do nordeste, percebo o mesmo movimento. Esse estilo não combina com nosso clima, enfiar vidro em casas e varandas é o mesmo que criar uma estufa num clima úmido e quente como o nosso. Aí as pessoas não entendem porque precisam tanto de ar condicionado. Estamos na terra do inventor do cobogó, sabe?! Então eu aproveitaria as redes sociais para engajar pelo ódio às construções bregas, ao porcelanato, à falta de estilo na decoração, ao mal aproveitamento do clima nas casas. Seria a favor dos cobogós, dos terraços abertos, do pé direito alto para que o vento circule e tire das casas a umidade que nos cozinha vivas como cenouras no vapor, a favor das plantas e árvores. Faria cimento-shaming, vidro-shaming, porcelato-shaming, minimalismo-shaming. Seria uma influencer tóxica de decoração e diria sem vergonha alguma "você gastou milhões numa casa sem personalidade e seu fosse você botaria abaixo essa porcaria".

Desinfluencer Motivacional
Esse eu já sou desde criança quando minha mãe me deu Poliana para ler e eu simplesmente fiz minha review "como é que a pessoa pode achar bom ficar para sempre numa cadeira de rodas?". O tal do "jogo do contente" nunca foi para mim e eu tenho plena certeza de que "this is the bad place". A vida é um horror e todos os dias a gente vive esses horrores e o esforço mental de tentar ver o lado positivo das coisas às vezes é grande demais pra suavizar seus efeitos. Então eu jamais seria vista nas redes sociais promovendo positividade tóxica, inclusive eu denuncio esse tipo de conteúdo. Vou incentivar todo mundo a se revoltar contra os horrores da vida, incitar o caos e me colocar à favor do colapso da sociedade. Fé e esperança não existem no meu vocabulário e eu só acredito que a humanidade está se encaminhando para o fim e a culpa é exclusivamente nossa.

Se você chegou até aqui, parabéns, prova de que você consegue ler um texto até o final e não tem a concentração de 3 segundos dos viciados em redes sociais. Venha desinfluenciar as pessoas você também! :)

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9 Comentários

  1. Um minuto de apreciação para o cobogó e como a gente pronuncia essa palavra 100% errado (acho ainda mais charmoso) e estou ansiosa para o dia de ter a minha casa e SOCAR ladrilho hidráulico em todos os locais possíveis.

    Garota do 330

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  2. Que texto maravilhoso! Por mais desinfluencers no mundo.

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  3. Adorei ser desinfluenciado por aqui. O complicado é que algumas desinglurnciacoes não geram conteúdo. Como parar de usar redes sociais por exemplo. Nesse aspecto. O algoritmo também não deve recomendar muito este conteúdo também.

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  4. What a unique and thought-provoking take on the idea of "disinfluencers"! Your reflections on de-influencing, from makeup to social media and even architecture, really highlight the power of stepping back from consumerism and reassessing how we spend our time and resources. I love the humor and candidness in your approach! Wishing you an eye-opening and restful weekend ahead, and feel free to check out my latest post at www.melodyjacob.com when you get a chance!

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  5. Eu confesso que eu gosto dos desinfluencers do YouTube. Não é algo que eu procure, mas quando o algoritmo me sugere, eu vejo hahahaha (Agora, por exemplo, tem aparecido mtos vídeos de "No buy year" ou "Low buy year")
    Acho legal ver como a geração mais nova (normalmente são mais novos) estão pensando nisso.

    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

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  6. É uma proposta interessante. Hoje em dia as pessoas ficam viciadas nas redes sociais e não contemplam o belo.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  7. E como é libertador não se cobrar fazer as coisas que todo mundo faz... Eu amo não precisar de maquiagem nem fazer as unhas toda semana, amo não precisar usar facebook, X, Instagram. E se quiser ver coisas engraçadas por lá com meu filho, uma vez ou outra no mês, me permitir isso sabendo que a gente vai ter crises de risos por alguns minutos e tá ótimo, sem necessidade de entrar novamente horas depois, sem sentir a mente aflita querendo ficar conectada 24h.
    Já há alguns meses/anos estamos trabalhando no 'estar presente'. As pessoas esquecem disso.

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  8. Vi recentemente uma menina criticando o consumismo em excesso que todos os influencers gostam de publicar e achei bem interessante a visão dela a respeito desse tipo de atitude. Cada vez está mais comum esse tipo de coisa. Isso ajuda a você entender que precisa ser um pouco mais você mesma e não se deixar influenciar por coisas ou atitudes que não vão agregar em nada na sua vida. Eu estou me libertando de redes sociais e isso tem me ajudado muito, porque estou tendo uma outra visão sobre muitas coisas e também muitas pessoas. Vivo melhor e posso dedicar meu tempo à coisas que realmente vão agregar algo na minha vida. Amei seu texto! <3

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  9. Meu sonho de princesa era ser uma desinfluencer também, e endosso demais o nicho "desinfluencer de arquitetura brega". Ninguém precisa mais desses mausoleus encaixotados que só servem pra dar recibo de novo rico

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